Sueli Carneiro, cuja entrevista a Caros Amigos
  inspirou a invenção desta revista.

 

 

 

"a vida só tem um sentido quando desejamos fortalecer no coração de outrem a imagem do que nos parece belo"
Lúcio Cardoso (1)

Inventando Pólvora - Editorial ou Intenções ou Vontades.

 

Quando penso nas pessoas que entrevistamos até agora: Contra Mestre Janja e Denilson Lopes, o que eles me inspiram, mais que qualquer coisa, é auto-estima enquanto ser humano, me inspiran amplas possibilidades dentro de um mundo que nos encaminha para o inexorável, porque é assim mesmo. Pagar (os juros d)a dívida do FMI, a natureza de nossos desejos, ter um celular, dor de cabeça e tomar aspirina, parece que não há outros caminhos.

 

As entrevistas que estarão nesta página mostram pessoas que optaram por vivências dentro de nossa sociedade moderna que fogem - ou melhor, encaram - inserções pobres no mundo. Acho que essa é a força que essas entrevistas tem: elas trazem pessoas que trabalham por construir-se dentro de outros modelos, e que se tornam então referências, na medida em que corporificam posibilidades que por vezes tendemos a pensar que são esperanças ingênuas, infantis, irreais. Mais que alguma coisa nova, eu acredito que a página pode trazer confianças, referencias, modelos, que nos possam ajudar a conformar vidas menos travadas, mais abertas, valentes, ativas, felizes. Daí o nome de Inventando Pólvora, que quer chamar a atenção para a nossa ansiedade pelo novo, que é a maneira pela qual nossos desejos costumam funcionar ultimamente. Eu gosto de pensar que existem tradições ou pessoas que vieram ao longo de anos, ou mesmo de séculos, cultivando concepções de mundo que nos tem muito que ensinar, mas que não podemos simplesmente consumí-las, mas cultivá-las por nossa nossa vez, através de processos e reflexões que possam educar-nos também a desejar de outras formas menos ansiosas, mais duradouras, mais sãs.

 

2. A primeria idéia para fazer o Inventando Pólvora veio com a entrevista que em 2000 Sueli Carneiro, diretora do Geledés - Instituto da Mulher Negra, concedeu a "Caros Amigos". Ali, ela expressava a sua opinião sobre Gilberto Freyre:

 

"ele é um dano para as mulheres negras, um dano psíquico, um dano emocional, um dano brutal"

 

 

Freyre é toda uma instituição na academia e na sociedade brasileira como um todo. Como podemos ver uma crítica tão severa dirigida a ele por uma representante de uma organização de mulheres negras? Somos levados a pensar, pelo menos, pelo menos, que se grupos que são sistematicamente excluídos de negociarem suas concepções de mundo com a sociedade como um todo, pudessem fazê-lo, a possibilidade de que um discurso como o de Gilberto Freyre fosse mantido seria dificultada em enorme medida.

 

Essa entrevista me fez pensar o que desde então tem sido óbvio: é uma excelente opção, quando desejamos saber algo com respeito a uma pessoa, perguntar a ela. Naquela época era eu estudante de antropologia e o modo habitual de trabalho de um acadêmico para se aproximar de outrem é interpretando-o. Há uma necessidade de autoria, de sentirmo-nos sujeitos inclusive do que observamos ou escutamos. Não é meu objetivo invalidar esse tipo de inserção reflexiva, eu também a faço, mas temos que saber que apenas isso é muito pouco.

 

A forma de entrevista facilita uma compreensão menos protagônica. Escutar então passou a ser o passo mais honesto e mais imprescindível. Fora da universidade, ou fora do modelo de universidade que temos, estão outros mundos que não deixam a desejar, que permitem outras maneiras de conhecimento. É extremadamente difícil perceber isso, porque a autoestima acadêmica é excludente. Eu senti assim e acho que muitos de meus colegas também: nos meus primeiros anos de academia, outras formas de conceber e a propia vida cotidiana perderam em objetividade, perderam em capacidade para conhecer, perderam em nobreza imaginativa para pensar. Bruno Paixão diz que os estudantes de comunicação da UnB parece que entraram numa seita que lhes deu o segredo para revelar o mundo, e acho que isso é o que muitos sentimos em outras disciplinas. Dar a volta nisso é difícil.

 

3. Eu acredito muito no que o Inventando Pólvora pode oferecer, quando vocês leiam as entrevistas, acredito que irão percebê-lo, tomara que possamos criar grupos de discussões e ações e participar de outros grupos com interesses semelhantes, que não são poucos, existe muito o que fazer, tenho muita confiança e esperança nisso. Preparando e realizando as entrevistas com a Contra Mestre Janja e Denilson Lopes, pude... o que mais me influenciou, linda coincidência, é que parte importante do que ambos procuram é dar um lugar (político) para o sentimento. Janja (Rosângela Araújo), em sua dissertação de mestrado, diz que dar visibilidade ao que se mantem oculto é um ato político (2). Nos meios políticos, acadêmicos ou informativos, a emoção dificilmente entra assumida como tal e eu acho que isso nos turva muito: não temos vocabulário para nossos sentimentos e isso dificulta nossa compreensão sobre eles, nos dificulta expressá-los, e quando nos arriscamos, corremos o risco de sermos piegas e superficiais. Mas, creio perceber que para Janja e para Denilson nos nossos sentimentos estão muitas chaves para abrir-nos e para mim foi ótimo, aliviante,   me encontrar com seus pensamentos. Não é nenhuma novidade localizar em emoções muitas de nossas elaborações humanas, mas o esforço para perceber e viver nossas elaborações como emoções (ainda que seja de maneira parcial), isso sim é difícil de encontrar. Eu faço o Inventando Pólvora porque eu queria, quero, dividir emoções, é possível justificar o Inventando Pólvora de outras maneiras, e, de fato, eu vou fazê-lo em outras ocasiões, estamos em um período fértil para discursos que denunciam a censura que exercem as diversas hegemonias sobre formas de conhecimentos que lhes põem em cheque. Mas agora eu quero apresentar mais a felicidade de ouvir a Janja, a vontade de que as pessoas escutem o que ela diz, que possam então perceber essa maneira tão bonita de viver que o pessoal da Capoeira Angola nos traz, porque se não a gente pode esquecer essa dimensão afetiva e enveredar para longe. E o Inventando Pólvora, eu queria que fosse isso, trabalhar, sentir, procurando ser feliz ao fazê-lo, com prazer e pensando nisso: em como podemos valer-nos da assunção de nossos sentimentos para nos expressar, para nos mostrar, para dar força política a eles.

 

Bom, muito obrigado pela atenção de vocês e tomara que trabalhemos muitos juntos,

 

um abraço,

 

Danilo

 

agradezco a José César e Arlene Clímaco, Nena de Olivera, Inés y María Paz Olivera, Yolanda Rodriguez, a Pati, a Cecília Rivera y a SUR - Centro de Estudios Sobre el Socialismo, por disponibilizar los ordenadores en los cuales esta página fue hecha.

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(1) In LOPES, Denilson, "O homem que amava rapazes e outros ensaios" Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002. volver

(2) ARAUJO, Rosângela Costa – “Sou discípulo que aprende, meu Mestre me deu lição: tradição e educação entre os angoleiros baianos (anos 80-90). Dissertação apresentada à Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1999. volver