![]() Sueli Carneiro, cuja entrevista a Caros Amigos inspirou a invenção desta revista. |
"a vida só tem um
sentido quando desejamos fortalecer no coração de outrem a imagem do que nos
parece belo" Inventando
Pólvora - Editorial ou Intenções ou Vontades.
Quando penso nas pessoas que
entrevistamos até agora: Contra Mestre Janja e Denilson
Lopes, o que eles me inspiram, mais que qualquer coisa, é auto-estima enquanto
ser humano, me inspiran amplas possibilidades dentro de um mundo que nos
encaminha para o inexorável, porque é assim mesmo. Pagar (os juros d)a dívida
do FMI, a natureza de nossos desejos, ter um celular, dor de cabeça e tomar
aspirina, parece que não há outros caminhos. As entrevistas que estarão nesta página
mostram pessoas que optaram por vivências dentro de nossa sociedade moderna que
fogem - ou melhor, encaram - inserções pobres no mundo. Acho que essa é a força
que essas entrevistas tem: elas trazem pessoas que trabalham por construir-se
dentro de outros modelos, e que se tornam então referências, na medida em que
corporificam posibilidades que por vezes tendemos a pensar que são esperanças
ingênuas, infantis, irreais. Mais que alguma coisa nova, eu acredito que a página
pode trazer confianças, referencias, modelos, que nos possam ajudar a conformar
vidas menos travadas, mais abertas, valentes, ativas, felizes. Daí o nome de
Inventando Pólvora, que quer chamar a atenção para a nossa ansiedade pelo
novo, que é a maneira pela qual nossos desejos costumam funcionar ultimamente.
Eu gosto de pensar que existem tradições ou pessoas que vieram ao longo de
anos, ou mesmo de séculos, cultivando concepções de mundo que nos tem muito
que ensinar, mas que não podemos simplesmente consumí-las, mas cultivá-las
por nossa nossa vez, através de processos e reflexões que possam educar-nos
também a desejar de outras formas menos ansiosas, mais duradouras, mais sãs. 2. A primeria idéia para fazer o
Inventando Pólvora veio com a entrevista que em 2000 Sueli Carneiro, diretora
do Geledés - Instituto da Mulher Negra, concedeu a "Caros Amigos".
Ali, ela expressava a sua opinião sobre Gilberto Freyre: "ele é um dano para as
mulheres negras, um dano psíquico, um dano emocional, um dano brutal" Freyre é toda uma instituição na
academia e na sociedade brasileira como um todo. Como podemos ver uma crítica tão
severa dirigida a ele por uma representante de uma organização de mulheres
negras? Somos levados a pensar, pelo menos, pelo menos, que se grupos que são
sistematicamente excluídos de negociarem suas concepções de mundo com a
sociedade como um todo, pudessem fazê-lo, a possibilidade de que um discurso
como o de Gilberto Freyre fosse mantido seria dificultada em enorme medida. Essa entrevista me fez pensar o que
desde então tem sido óbvio: é uma excelente opção, quando desejamos saber
algo com respeito a uma pessoa, perguntar a ela. Naquela época era eu estudante
de antropologia e o modo habitual de trabalho de um acadêmico para se aproximar
de outrem é interpretando-o. Há uma necessidade de autoria, de sentirmo-nos
sujeitos inclusive do que observamos ou escutamos. Não é meu objetivo
invalidar esse tipo de inserção reflexiva, eu também a faço, mas temos que
saber que apenas isso é muito pouco. A forma de entrevista facilita uma
compreensão menos protagônica. Escutar então passou a ser o passo mais
honesto e mais imprescindível. Fora da universidade, ou fora do modelo de
universidade que temos, estão outros mundos que não deixam a desejar, que
permitem outras maneiras de conhecimento. É extremadamente difícil perceber
isso, porque a autoestima acadêmica é excludente. Eu senti assim e acho que
muitos de meus colegas também: nos meus primeiros anos de academia, outras
formas de conceber e a propia vida cotidiana perderam em objetividade, perderam
em capacidade para conhecer, perderam em nobreza imaginativa para pensar. Bruno
Paixão diz que os estudantes de comunicação da UnB parece que entraram numa
seita que lhes deu o segredo para revelar o mundo, e acho que isso é o que
muitos sentimos em outras disciplinas. Dar a volta nisso é difícil. 3. Eu acredito muito no que o
Inventando Pólvora pode oferecer, quando vocês leiam as entrevistas, acredito
que irão percebê-lo, tomara que possamos criar grupos de discussões e ações
e participar de outros grupos com interesses semelhantes, que não são poucos,
existe muito o que fazer, tenho muita confiança e esperança nisso. Preparando
e realizando as entrevistas com a Contra Mestre Janja e Denilson Lopes, pude...
o que mais me influenciou, linda coincidência, é que parte importante do que
ambos procuram é dar um lugar (político) para o sentimento. Janja (Rosângela
Araújo), em sua dissertação de mestrado, diz que dar visibilidade ao que se
mantem oculto é um ato político (2).
Nos meios políticos, acadêmicos ou informativos, a emoção dificilmente entra
assumida como tal e eu acho que isso nos turva muito: não temos vocabulário
para nossos sentimentos e isso dificulta nossa compreensão sobre eles, nos
dificulta expressá-los, e quando nos arriscamos, corremos o risco de sermos
piegas e superficiais. Mas, creio perceber que para Janja e para Denilson nos
nossos sentimentos estão muitas chaves para abrir-nos e para mim foi ótimo,
aliviante, me encontrar com
seus pensamentos. Não é nenhuma novidade localizar em emoções muitas de
nossas elaborações humanas, mas o esforço para perceber e viver nossas
elaborações como emoções (ainda que seja de maneira parcial), isso sim é
difícil de encontrar. Eu faço o Inventando Pólvora porque eu queria, quero,
dividir emoções, é possível justificar o Inventando Pólvora de outras
maneiras, e, de fato, eu vou fazê-lo em outras ocasiões, estamos em um
período fértil para discursos que denunciam a censura que exercem as diversas
hegemonias sobre formas de conhecimentos que lhes põem em cheque. Mas agora eu quero
apresentar mais a felicidade de ouvir a Janja, a vontade de que as pessoas
escutem o que ela diz, que possam então perceber essa maneira tão bonita
de viver que o pessoal da Capoeira Angola nos traz, porque se não a gente pode
esquecer essa dimensão afetiva e enveredar para longe. E o Inventando Pólvora,
eu queria que fosse isso, trabalhar, sentir, procurando ser feliz ao fazê-lo, com prazer e
pensando nisso: em como podemos valer-nos da assunção de nossos sentimentos
para nos expressar, para nos mostrar, para dar força política a eles. Bom, muito obrigado pela atenção
de vocês e tomara que trabalhemos muitos juntos, um abraço, Danilo
agradezco a José César e Arlene Clímaco, Nena de Olivera, Inés y María Paz Olivera, Yolanda
Rodriguez, a Pati, a Cecília Rivera y a SUR - Centro de Estudios Sobre el Socialismo,
por disponibilizar los ordenadores en los cuales esta página fue hecha. comentários | voltar
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(1)
In LOPES, Denilson, "O homem que amava rapazes e outros
ensaios" Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002. volver
(2)
ARAUJO, Rosângela Costa
– “Sou discípulo que aprende, meu Mestre me deu lição: tradição e
educação entre os angoleiros baianos (anos 80-90). Dissertação
apresentada à Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. São
Paulo, 1999. volver
Lúcio Cardoso (1)